Villegagnon e a França Antártica

Os Franceses na Guanabara

Assim que terminei de ler O Rio antes do Rio, fiquei na fissura de ler Os franceses na Guanabara, que conta a história de Villegagnon e a França Antártica. Afinal, o que aprendemos na escola sobre a tentativa frustrada da França em estabelecer uma colônia no Rio de Janeiro? Que Estácio de Sá botou os franceses pra fora com a ajuda de Araribóia.

No entanto, trata-se de uma empreitada que durou pouco mais quatro anos e rendeu ainda mais sete anos de guerra encarniçada contra os Tupinambás. E, sabendo que os franceses frequentavam a região há muito mais tempo, a França Antártica fazia por merecer mais do que uma nota de rodapé nos livros de História.

Já conhecia o livro desde sua publicação em 1999, e creio que cheguei a dar de presente à minha mãe, a 1ª ou 2ª edição. Mas, ao saber que em 2015 havia saído uma 3ª edição revista e ampliada, deixei de lado a busca arqueológica na casa dos meus pais e optei pela aquisição de mais um livro pra minha estante.

Curiosamente, o título havia mudado. Relançado para a comemoração dos 450 anos da cidade, alguém (provavelmente um editor) rebatizou Villegagnon e a França Antártica como Os franceses na Guanabara. O título atual é ainda mais enganoso do que o primeiro. Por que enganoso? Porque o verdadeiro foco do livro é Villegagnon, não a França Antártica. E, portanto, muito menos os franceses que estiveram na Guanabara. Nisso o livro de Rafael Freitas da Silva é muito mais prolixo.

O livro atira no que viu e acerta no que não viu. Ainda que, desde o início, os autores anunciam que o foco é discutir o desempenho de Nicolas Durand de Villegagnon na Guanabara, a melhor parte do livro é a descrição do contexto da guerra religiosa na França do século XVI e a construção biográfica de um personagem menor da historiografia francesa e brasileira, de quem só restou um nome de ilha, um nome de rua e uma placa na casa onde nasceu. O personagem Villegagnon é, sem dúvida, a coisa mais interessante da intrincada narrativa construída pelo diplomata brasileiro aposentado Vasco Mariz, autor de muitos livros de História e de música brasileira com perspectiva histórica, e o capitão de mar e guerra francês Lucien Provençal, estudioso da marinha de seu país e casado com uma brasileira.

Os dois primeiros capítulos procuram mostrar o contexto da época, tanto no campo das grandes navegações quanto a questão religiosa. Do 3º ao 7º capítulo, trata-se da história de Villegagnon até a missão no Brasil. É a parte mais interessante do livro, digna de um romance épico de “capa e espada”. Os dois capítulos seguintes tratam do prelúdio à viagem de Villegagnon. A França Antártica propriamente dita ocupa do capítulo 10 ao 13, cerca de um quarto do livro. Depois, mais um capítulo é dedicado à vida de Villegagnon após o regresso à França. Um outro, bastante interessante, apresenta várias cartas escritas pelo biografado na época. E, por fim, a conclusão, discutindo se o cavaleiro da Ordem de Malta era herói ou vilão. Mera formalidade…

Livros históricos que servem à defesa de tese são problemáticos. Os autores têm como objetivo defender Villegagnon contra os ataques desferidos pelos calvinistas, particularmente por Jean de Léry, que escreveu o mais respeitado e divulgado relato da experiência francesa, ainda que seu foco seja mais os nativos do que a colônia francesa. De fato, ao ler O Rio antes do Rio, que se baseia muito no livro de Léry, havia ficado com a impressão de que Villegagnon era um possesso, cuja imbecilidade havia condenado a França Antártica ao fracasso. Contudo, as histórias de sua vida antes e depois do Brasil, mesmo se os autores não entrassem no mérito da questão, revelam um homem culto, sagaz, diplomático, corajoso e fiel aos dogmas católicos. Assim como aquele personagem interpretado por Orlando Bloom em Cruzada, Villegagnon era mestre em construir um sistema de defesa praticamente inexpugnável. Com certeza nunca havia sido colocado em uma posição de comando que exigisse tantas habilidades como ser o comandante supremo de uma missão colonial. Foi pouco diplomático com os também inflexíveis calvinistas e não soube fazer vista grossa aos costumes, digamos, menos rigorosos dos nativos, particularmente os sexuais.

Ainda que tenham deixado a imparcialidade um pouco de lado, Mariz e Provençal defendem bem o seu ponto. No entanto, talvez pela idade e proeminência de Mariz, faltou um editor ao livro. Há muitas passagens repetitivas, às vezes com as mesmas frases, e narrativas que vão e voltam no tempo sem que seja fruto de estilo ou didatismo. É quase como se fossem uma seleção de artigos independentes de seminários juntados para compor uma única narrativa. Essas repetições por vezes ocorrem no mesmo capítulo.

E, para minha surpresa, a parte mais desinteressante é justamente a que fala da França Antártica. Talvez por focar na disputa religiosa entre o almirante e os calvinistas, os autores pouco se interessaram em relatar outros acontecimentos relacionados à colônia ou dar a eles uma organização, como se o leitor já estivesse ciente de toda a história, de forma que só lhe interessasse a controvérsia. Por acaso, eu realmente já conhecia a história, mas fiquei frustrado por esperar mais detalhes. Em vez disso, achei os capítulos referentes à França Antártica muito pobre de informação, exceto a parte que fala sobre Henriville, vila construída às margem do atual Flamengo e que Léry dizia não ter existido. Sobre o forte de Coligny, na atual Ilha de Villegagnon, os outros relatos são muito mais detalhados. Mas, para a minha surpresa, a história de Villegagnon é epicamente deliciosa.

O Trono da Rainha Jinga

O trono da rainha Jinga

O Trono da Rainha Jinga foi o primeiro livro escrito por Alberto Mussa para seu Compêndio Mítico do Rio de Janeiro, cujo objetivo é narrar uma história policial ocorrida em cada século. Mas estou lendo na sequência dos séculos, não do ano de publicação. Por isso, deixei este livro, cuja história se passa em 1626, para depois de A Primeira História do Mundo, que se passa no século XVI.

Ao contrário deste primeiro romance, que pode até ser descrito como romance histórico, uma vez que é baseado nos autos da investigação de um crime ocorrido de fato em 1567, o segundo nada tem de histórico, havendo até mesmo algumas imprecisões (declaradas pelo próprio autor). No entanto, o texto procura emular o estilo da época.

Trata-se, na verdade, de uma típica novela, quase 120 páginas rápidas de ler. O principal atrativo, mais do que o enredo, é que cada capítulo é narrado por um personagem. E em momento algum eles se repetem. Apenas os capítulos em flashback são narrados em terceira pessoa, todos falando do passado de Mendo Antunes em Goa e em Angola. Antunes é o mais parecido com um protagonista no livro, e quem abre o primeiro capítulo. Sei lá por quê, sempre me veio à mente a figura de Sor Davos, de Game of Thrones.

Mussa conta na introdução que muitos pediram uma edição mais extensa do livro, o que ele acabou não fazendo. A narrativa é por demais concisa, e uma pequena distração na leitura pode fazer o leitor perder algum detalhe importante. Pelo mesmo motivo, ficamos com um gosto de “quero mais” em relação aos personagens e à trama. De fato, a história renderia facilmente um romance de 400 páginas.

Tudo se passa em torno de uma série de eventos criminosos na cidade que parece envolver uma irmandade secreta. Muitos são os personagens envolvidos, bem como as vítimas. Como não bastasse a complexidade da trama e até mesmo o aspecto filosófico desta, Mussa “rouba” descaradamente em pelo menos duas informações, induzindo o leitor ao erro. No caso, pegar o assassino não é exatamente a meta do leitor, e sim a da justiça local. Mas há um personagem misterioso que se infiltra aos poucos na narrativa.

Infelizmente, o livro do século XVIII foi deixado pro final e ainda não saiu, de forma que talvez eu seja obrigado a pular minha ordem de leitura.

1499

1499

Dei de cara com 1499 na livraria quando ainda estava lendo O Rio antes do Rio, comprando-o por impulso. Imaginei, influenciado pelo livro que lia e por sua capa (sem notar as pinturas rupestres na parte de cima), que se se tratava do retrato do país, e não só de uma cidade, imediatamente antes da chegada de Cabral. Teria sido um belo livro.

Apesar do título, a proposta é mais abrangente e até certo ponto ousada: traçar um histórico de toda a ocupação humana no território brasileiro, desde 13 mil anos antes de Cristo até a chegada dos portugueses (e franceses, e espanhóis). A abordagem é mais arqueológica que antropológica.

O texto começa com uma longa explanação sobre a chegada do Homo sapiens no continente, até então virgem desses macacos (quase) pelados a partir de Luzia, nossa “Lucy” de Lagoa Santa, chegando a descrever os animais que viviam por aqui naquela época. Passa pela cultura dos sambaquis e depois se enfurna nos povos da Amazônia. Na metade do livro, Jesus ainda nem sonhava em nascer e já fica claro o quão pouco evoluímos como espécie nos últimos 10 mil anos.

Na parte mais “atual”, o único defeito livro: o autor se detém apenas sobre os Aruaques e os Tupi-Guaranis, deixando de lado os Caribes e os Jês, exceto pelo Proto-Jês da região sul, ainda assim como contraponto ao avanço guarani. Em um livro curto de apenas 230 páginas, não era necessária essa omissão.

O último capítulo é destinado às razões da derrocada dos nativos sulamericanos: a tecnologia (mais o aço das espadas e armaduras do que pelas armas de fogo), os cavalos, a organização estatal e a biologia. Ele coloca as doenças como principal inimigo dos índios, o que não chega a ser novidade, mas aponta o porquê disso: a quase ausência de animais domésticos.

Reinaldo José Lopes, o autor, foi editor de Ciência da Folha de São Paulo até 2013, sendo agora apenas repórter, colunista e blogueiro da seção. Fez ainda mestrado e doutorado em literatura inglesa, escrevendo sobre Tolkien. Sua abordagem é claramente voltada para o aluno de ensino médio, fazendo questão de explicar termos até mesmo óbvios para o leitor mais maduro. Mas ele prefere correr o risco de ser chato do que não ser compreendido.. Porém, ao contrário do que costuma acontecer com os especialistas midiáticos que se tornam populares, ele conserva o rigor da informação científica. A linguagem descolada, coloquial, cheio de referências culturais, serve como um molho especial para tornar mais atraente e palatável a crueza da objetividade científica. Não chega a falsas conclusões, não procura preencher lacunas com fantasias, deixando sempre claro que há ainda muito a explorar e descobrir. Quando é inevitável abordar uma questão mais técnica, abre uma “caixa de diálogo” e explica determinado conceito. De certo modo, isso fornece uma leitura paralela. Todo o tempo eu ficava imaginando como um adolescente receberia determinada informação.

De fato, em vez de serem submetidos a apostilas cada vez mais sintéticas que tornam o aluno mais dependente das explicações do professor, quando não a deturpações históricas movidas por interesse político, 1499 é uma ótima indicação de leitura para nossos alunos.

O Labirinto dos Espíritos

O Labirinto dos Espíritos

O Labirinto dos Espíritos é o quarto e último livro de Carlos Ruiz Zafón para a série O Cemitério dos Livros Esquecidos. E é o melhor deles. Claro que compará-lo com A Sombra do Vento é o mesmo que tentar comparar Guerra nas Estrelas com O Império Contra-Ataca. Ou Jornada nas Estrelas com A Nova Geração. O primeiro traz a ideia original, a criatividade, a magia. Mas o quarto livro é o de melhor carpintaria, melhor texto e melhor personagem: Alicia Gris. Sim, Zafón ainda nos faz o favor de apresentar um personagem completamente novo!

Se este é o melhor, fica claro que O Jogo do Anjo é o mais, digamos, complicado da série. Adoraria ter a oportunidade de perguntar uma coisinha ao autor: se ele já tinha toda a série planejada ou se ia criando à medida que os livros iam saindo. A Sombra do Vento, por exemplo, é um livro fechado como Star Wars, inclusive com um epílogo no futuro e uma Barcelona mais solar. Da mesma forma, O Jogo Anjo avança para além dos fatos narrados em O Prisioneiro do Céu e O Labirinto dos Espíritos. Fico com a nítida impressão que, nesses dois últimos, Zafón resolveu mudar o rumo da prosa.

Primeiro, como já disse em outra resenha, creio que ele tinha a ideia de contar histórias distintas com personagens que se esbarravam. Em O Jogo do Anjo, David Martin, o protagonista, interage com os pais de Daniel Sempére, protagonista do primeiro. No terceiro livro, parece ter decidido algo completamente diferente, e passa a metade da série tentando explicar as incoerências com O Jogo do Anjo. Tudo, no final, é debitado na conta da loucura de David Martin (exceto algumas imprecisões históricas, que Zafón assume na abertura do livro final). Aliás, o tema é insistentemente repisado em O Labirinto dos Espíritos. Então, em vez de histórias diferentes, tudo passa a ser uma única grande saga, a história da Família Sempére.

Segundo, os dois primeiros livros têm como um dos personagens a Literatura. Já nos dois seguintes, o autor adota de vez o thriller noir. A trama policial passa a ser o foco central da narrativa. Um grande vilão central é eleito, Maurício Valls, e toda a movimentação dos personagens passam a girar ao redor dele.

Terceiro, O Prisioneiro do Céu é o único livro que não tem fim. Ele tem um gancho claro para continuação. Embora eu pense que Zafón tenha mudado de ideia quanto ao autor do bilhete deixado para Daniel no final do livro, fica clara a intenção de dar prosseguimento à trama de Maurício Valls. Por outro lado, se Zafón deixasse de escrever depois de O Jogo do Anjo, os leitores não sentiriam falta de nada.

Por fim, se antes a ditadura franquista aparecia apenas como justificativa para a ambientação noir e o abuso de seus vilões, as tramas se desenvolviam muito mais devido a ambições e obsessões pessoais que não possuíam relação direta com o cenário político. Neste livro, a ditadura de Franco ganha protagonismo e passa a ser referência fundamental para a trama, inclusive retroativamente, dando sentido a tantos escritores malditos e esquecidos.

O Cemitério dos Livros Esquecidos, apenas mencionado no terceiro livro, que serviria apenas como um ponto de ligação entre as tramas, acaba ganhando mais protagonismo no final. Porém, seu sentido poético e metafórico tem pouco impacto na trama principal. Os livros viram pistas a serem seguidas e não um reflexo da vida.

E lá está o aviso inicial de que os livros podem ser lidos fora de ordem. Não podem. Apenas O Jogo Anjo permite um papel de coringa na série, mas nunca como o último livro.

O Labirinto dos Espíritos se dedica a aparar todas as arestas deixadas ao longo da série e dar a toda a narrativa uma unicidade. Ainda que alguns aspectos da história de David Martín tenham ficado mal explicadas (mesmo com a “chave mestra” da loucura), que a relação de Fermín com Alicia tenha ficado um pouco forçada e o final das irmãs Mataix não tenha feito muito sentido, eu diria que o autor atingiu seu objetivo com louvor. E, com um toque à la Borges, envolve em névoas a fronteira da ficção e a realidade, chegando até os anos 90.

Sinto como se Zafón estivesse todo o tempo experimentando um estilo narrativo e brincando com suas obsessões. Sempre tem um casarão imponente abandonado, um policial cruel e mau feito um pica-pau, uma figura misteriosa que vive nas sombras, um autor genial que ninguém conhece e um livro desconhecido e adorado por uns poucos especialistas, um oponente que parece ser maior do que os personagens são capazes de enfrentar, e, o mais irritante, muita névoa, temporais, crepúsculos avermelhados e temporais claustrofóbicos. Se a Barcelona de Zafón existisse, já teria afundado.

Em seu quarto romance, ele atinge a receita ideal com tais ingredientes. Até quase a metade do livro, as investigações de Alicia Gris são a encarnação perfeita de um romance noir. O leitor pode até abstrair de tudo o que leu antes, não fosse nomes e personagens já conhecidos. Alicia é o personagem mais bem construído de toda a série, que você pode sentir como se fosse de carne e osso e até antecipar suas reações. E a cerca todo um repertório de novos personagens, sendo os principais Vargas e Leandro.

Então, em uma reviravolta, onde Zafón faz um de seus fast forwards (ou seja, quando o personagem encontra alguém que lhe dá todo o serviço), a narrativa volta a lembrar a dos outros livros. Mas quando se pensa que o autor decidiu se refugiar atrás de seus clichês, estes ganham novos significados e levam a trama mais para frente e para outros mistérios e novas reviravoltas.

Alicia e Vargas se veem em um verdadeiro labirinto, como aqueles de ratos de laboratório. Então finalmente entra em cena o núcleo da família Sempére. Fermín no mesmo papel de sempre, mas Daniel, pela primeira vez, serve de coadjuvante apagado. É Bea quem ganha o protagonismo, recuperando a personalidade que parecia ter perdido já na reta final de A Sombra do Vento. E, só pra dizer que o livro é das mulheres, há todo um capítulo destinado ao diário de Isabella.

Quem surge aos poucos como protagonista é Julián Sempére, responsável por dar unidade à toda a narrativa da série.

Como diz o crítico do El Mundo, na capa da edição brasileira, “o talento de Zafón é arrasador”. Em O Labirinto dos Espíritos, como há muito não ocorre comigo, fui tomado por aquela urgência da leitura. Trabalho, esposa, filhos, a própria vida, tudo deveria ser deixado em suspenso até eu terminar de devorar suas páginas.

O Rio antes do Rio

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Jornalistas e seus hobbies às vezes rendem resultados inusitados. Rafael Freitas da Silva, produtor do Esporte Espetacular, resolveu escrever um livro que procura retratar o Rio de Janeiro antes de sua fundação por Estácio de Sá em 1º de março de 1565. Até seus colegas se surpreenderam.

Minha mãe (que adorou o livro) disse que o único defeito é o autor não ser antropólogo. Entretanto, para relatos descritivos que exigem uma boa dose de investigação, leitura comparativa e cruzamento de dados, os profissionais de jornalismo se sentem muito à vontade e rendem bem.

O mais difícil, em uma empreitada dessa natureza, é encontrar as fontes. Os historiadores ficaram praticamente dependentes dos relatos de jesuítas e aventureiros. Mas, sobre o Rio, a maior fonte de informações é francesa. Tendo de escrever o livro paralelamente ao trabalho na Globo, ficou para a mãe do autor, Neise, a missão de vasculhar instituições e bibliotecas pelo mundo atrás de obras antigas e desaparecidas. Talvez um making of do livro seja tão interessante quanto o próprio.

O Rio antes do Rio é composto por quatro capítulos bem marcados. O primeiro é dedicado a cultura dos tupinambás. Seus rituais (principalmente o antropofágico), as relações internas das tabas, o papel do homem, da mulher, da criança, o desenvolvimento social desde a tenra infância até ser considerado um adulto completo, o nascimento, alimentação, organização política, casamento, sexo etc.

No segundo capítulo, o autor parte para a descrição das tabas existente no Rio de Janeiro na primeira metade do século XVI. São 160 páginas destinadas ao assunto, quase metade do livro. Talvez justamente a parte de interesse mais específico aos cariocas, que poderão vislumbrar como era a sua cidade antes da chegada do europeu e encontrar vestígios dessa época nos dias de hoje; e àqueles que estudam a língua tupi.

Partindo principalmente das andanças do francês Jean de Léry nos anos 50, antes da chegada de Estácio de Sá, Rafael tenta identificar a localização de cada taba no município e ao redor da baía da Guanabara, fazendo pequenas pontes com os dias atuais. Sempre que possível, conta alguma história ocorrida nela, quando dá abertura a mais informações de ordem cultural. Quase sempre, por meio do topônimo, discorre sobre a fauna e a flora local, e especula sobre as possíveis características da aldeia e do morubixaba local. Como as fontes sobre o tema são compostas mais de lacunas do que por dados, o autor tenta sempre preenchê-las analisando os significados dos termos tupis associados a cada lugar.

Estes dois primeiros capítulos são essenciais para criar a ambiência da época, transmitir ao leitor uma pálida ideia do impacto que a beleza natural do Rio provocou em franceses, portugueses e espanhóis que por aqui passaram naqueles primeiros anos. Impacto, aliás, não muito diferente daquele provocado nos próprios tupinambás, que vieram descendo a costa para expulsar os carijós que aqui viviam. Ao chegarem a essas terras, os tupinambás julgaram ter encontrado a Terra Sem Mal, o enclave do paraíso na terra, como também acreditaram alguns europeus.

Os dois capítulos seguintes se dedicam a uma deliciosa narrativa histórica. Uma vez apresentados os protagonistas e o cenário, chega a hora de apresentar o enredo.

No terceiro capítulo, são narradas todas as viagens de navegantes europeus que passaram pela baía nem que fosse para um breve pit stop, desde a primeiríssima viagem de Américo Vespúcio até a viagem dos irmãos Martim Afonso e Pero de Sousa, e o subsequente azedamento da relação entre portugueses e tupinambás a partir do estabelecimento daqueles em São Vicente, onde vivam os rivais tupiniquins.

O quarto capítulo narra justamente a chegada dos franceses, a tentativa de colonização, e a guerra contra os portugueses, terminando com a fundação da cidade e o massacre dos tupinambás.

Aqui fica claro que a animosidade entre tupinambás e portugueses é anterior à chegada dos franceses, devido à escravização dos tupinambás em moldes bem diferentes ao culturalmente aceito por eles. Como os tupiniquins eram aliados dos portugueses, os escravos eram obtidos entre as tribos rivais, tupinambás e carijós. Até então, os tupinambás cariocas receberam bem praticamente todos os europeus que chegaram a suas costas. E não foi diferente com os franceses. Entretanto, a intolerância religiosa de Nicolas Villegagnon (agindo de forma contrária a que fora instruído pela coroa francesa) levou ao total fracasso da França Antártica. Quando os portugueses chegaram à baía para combater os franceses, a colonos se encontravam divididos, seu líder havia partido para buscar reforços (que jamais obteria), muitos colonos já haviam debandado, partindo de volta com os navios que levavam pau-brasil, e o apoio dos tupinambás reduzidíssimo devido ao conflito de Villegagnon com os truchements, os órfãos franceses deixados ali 10 anos antes para conviverem com os índios. A derrota dos franceses era questão de tempo. A briga que se seguiu depois contra os tupinambás é que foi acirrada e longa. Estácio de Sá emerge dessa história como um verdadeiro herói dos portugueses, conseguindo defender um precário aldeamento com status de cidade por dois anos, contra todas as probabilidades.

Quem sai com a imagem desgastada de tudo isso é o padre José Anchieta, que se revela um empolgado articulador político em favor dos portugueses, não se importando em negociar um tratado de paz que só servia para garantir tempo aos portugueses, e que chamou as forças de Mem de Sá que massacraram os tupinambás de Paraguaçu, na Bahia, de “esquadrões de Cristo”.

Assim, O Rio antes do Rio alcança seu objetivo com louvor. É tanta informação concentrada que a leitura se torna lenta, mas obrigatória a todos que se interessam por história do Brasil e cultura indígena.

O Jogo do Anjo

O Jogo do Anjo

Finalmente criei coragem para ler O Jogo do Anjo, segundo livro da série O Cemitério dos Livros Esquecidos, do escritor catalão Carlos Ruiz Zafón. Abri suas páginas um pouco desanimado, pois todos que eu conheço ficaram um tanto insatisfeitos com ele, sendo que a maioria até desistiu de ler o terceiro, O Prisioneiro do Céu.

A principal crítica seria inconsistências em relação ao primeiro, A Sombra do Vento. Li preparado para encontrá-las e posso afirmar categoricamente que não há. Não há nada aqui que não encaixe no livro anterior, seja em relação aos personagens, seja em relação à cronologia.

Outra, que não é bem uma crítica, é pelo fato de ser um prequel. Apesar de se passar antes dos eventos de A Sombra do Vento, inclusive com personagens do núcleo narrativo deste, O Jogo do Anjo é uma história completamente independente. Tanto faz ler um ou outro primeiro. Mas entendo a frustração de quem esperava ler a continuação da história de Daniel Sempere, ou mais sobre Julián Carax.

O livro, lançado sete anos depois do primeiro, reforça a impressão de que, inicialmente, Zafón pensava em escrever várias histórias independentes cujos personagens se esbarrassem e que tivessem em comum o Cemitério dos Livros Esquecidos. O estilo narrativo direto de O Prisioneiro do Céu me faz crer que o autor deixou essa ideia de lado, decidiu dar continuidade à história de Daniel e fundir as duas narrativas anteriores em uma só, já apontando para a sua continuação, O Labirinto dos Espíritos, que chega às livrarias brasileiras no fim de agosto.

Ao fazer isso, contudo, Zafón mudou completamente o final de O Jogo do Ano, quando ele conta rapidamente o que aconteceu nos 15 anos seguintes da vida de David Martín, o jovem escritor protagonista. Simplesmente NADA do que está escrito ali bate com o que é narrado em O Prisioneiro do Céu. Aguardo ansiosamente pela continuação pra ver se ele dá alguma desculpa. Só uma, a meu ver, é possível: na prisão, todos duvidam da sanidade de Martín. Lá, ele tenta escrever suas memórias, ao qual dá o título de O Jogo do Anjo, cujo manuscrito termina nas mãos de Daniel. Com isso, Zafón pode alegar que o livro que lemos antes (de fato narrado em primeira pessoa) foi escrito por uma pessoa perturbada e que não podemos acreditar em tudo o que ele conta. Uma péssima saída, certamente. Talvez para reforçar esse jogo de ficção dentro da ficção, um quinto livro da série já está prometido: A Sombra do Vento escrito por Julián Carax.

Quanto ao livro em si, a narrativa é mais sombria que a anterior. O protagonista, contudo, não é exatamente uma pessoa simpática, mas um sujeito cético e cínico. Porém, mais do que no livro anterior, a forma como a narrativa vai enredando o leitor (e o personagem) é muito hábil e atraente. Lá pelo meio, não entendia como meus amigos não haviam gostado dele. O desfecho, no entanto, é bastante frustrante. Não só porque quase nada é explicado, como ainda escapa pelo lado do sobrenatural, como um Twin Peaks da vida. Uma saída fácil na qual tudo passa a ser permitido e possível. Como tudo em A Sombra do Vento acaba se revelando realista (como também em O Prisioneiro do Céu), o sobrenatural destoa e decepciona.

Interessante observar diversas pontes entre os dois primeiros livros, além da livraria dos Sempere. No primeiro, há a literatura como um espelho da vida (ou vice-versa). O segundo aborda as engrenagens da literatura. Nos dois há uma editora pouco conhecida e um personagem misterioso. Nos dois há uma história trágica no passado que o protagonista é levado a investigar para entender o que se passa com ele no presente. Ambos os protagonistas têm um policial em seu encalço. Nos dois livros há uma família importante, um casarão imponente na subida do morro, um amor proibido, uma fuga de trem frustrada e um escritor genial e maldito, pouco conhecido. E, principalmente (o que me irrita um pouco), a insistência de Zafón em descrever um cenário de névoas, sombras, crepúsculos avermelhados, nuvens de chumbo, fortes tempestades, folhas levantadas pelo vento. A secretaria de turismo de Barcelona não deve gostar de Zafón.

Por outro lado, este, mais do que qualquer outro livro da série, me deu vontade de voltar à cidade e percorrer aquelas ruas estreitas do bairro gótico.

No fim das contas, o papo de que não importa a leitura dos livros não procede. Por exemplo: deve-se começar com O Jogo do Anjo ou com A Sombra do Vento. Realmente tanto faz, embora considere menos frustrante começar por O Jogo do Anjo. Assim, de certa forma, um começaria onde o outro terminou: em 1945. Além disso, a presença do sobrenatural neste faria com que, ao ler A Sombra do Vento, a imaginação do leitor voasse ainda mais alto.

Entretanto, seria um total absurdo ler O Prisioneiro do Céu antes de A Sombra do Vento, uma vez que aquele é uma continuação de fato deste. Por outro lado, ler o terceiro livro depois de O Jogo do Anjo teria sido para mim extremamente irritante devido às discrepâncias entre os dois. Além disso, se O Jogo do Anjo é, afinal, o manuscrito de Martín entregue a Daniel Sempere, é como se estivéssemos folheando suas páginas junto com o livreiro.

Assim, prefiro a minha ordem: A Sombra do Vento, O Prisioneiro do Céu e O Jogo do Anjo. E que venha o labirinto!

OUTLANDER

Outlander

Para preencher a semana entre os episódios de Game of Thrones, resolvemos checar a série anglo-americana Outlander. Só sabia que era uma série de época, passada nas highlands escocesas. Mas eis que ação começa nos últimos instantes da Segunda Guerra. A protagonista, uma enfermeira, volta pra casa e, junto com o marido, um historiador que serviu no serviço de inteligência britânico, partem para uma segunda lua de mel na Escócia. O objetivo principal é se reconhecerem após tanto sem mal se verem. A guerra havia mudado a ambos. O drama, entretanto, não é esse, pois eles se entendem muito bem, a ponto do marido poder se dedicar a seu objetivo secundário: pesquisar a vida de um antepassado do século XVIII, um temido capitão inglês.

Um toque sobrenatural fica sugerido por eles terem ido na época do dia das bruxas local. Sem querer, presenciam um ritual em um local tipo Stonehenge. E é lá que nossa heroína, uma vez sozinha, é transportada 200 anos no passado e se vê em meio a um tiroteio entre soldados britânicos e rebeldes escoceses. E, claro, dá de cara com o tal antepassado do marido, interpretado pelo mesmo ator. Mas, supresa!, ele é o vilão da série, capaz de fazer Darth Vader parecer um ser misericordioso.

Com um fraco por viagem no tempo e filmes de época, decidimos acompanhar a série, a qual, inicialmente, parecia ser destinada a ser a eterna tentativa de volta ao lar, como uma espécie de Dorothy no Túnel do Tempo. Ledo engano.

Pesquisando sobre a série, fiquei sabendo tratar-se de uma adaptação de uma série de livros lançada nos anos 90 pela escritora americana Diana Gabaldon, que ganhou por aqui o título A Viajante do Tempo. Diana queria treinar para romancista e, vendo um episódio de Doctor Who, pensou em um personagem para um romance de época ma Escócia do século XVIII, o verdadeiro protagonista da trama. Mas como o par romântico de escocês era uma espécie de visão crítica dos costumes da época, a autora chegou à conclusão que tais pensamentos eram muito avançados, e chegou à conclusão que ela poderia ser uma viajante do tempo, tomando o protagonista do herói escocês. Ao saber disso, vi que Claire Beauchamp não voltaria ao século XX no fim da temporada, que o foco era mesmo as aventuras no passado.

A personagem é do tipo heroína romântica com atitude, mas que cai de quatro pelo ruivo musculoso com pinta de galã, tirado de algum romance de Barbara Cartland. A reconstituição de época e ênfase na cultura local garante o interesse e a qualidade. Muitos diálogos são em gaélico e sem legenda (propositalmente, uma vez que a série é narrada em primeira pessoa).

O vilão, apesar de ser mau feito um pica-pau, com uma perversidade chocante e sem filtro, escapa da caricatura, revelando alguma complexidade em sua vilania. Raramente se vê um vilão tão cruel de forma tão realista. Geralmente a caricatura é uma forma de abrandar o lado negro da alma humana, nos apresentando um vilão irreal. Quando se tem um vilão realista, é comum tentar explicá-lo ou torná-lo ambíguo. Black Jack Randall é complexo sem ser ambíguo; cruel sem cair na afetação; e muito mau mesmo.

Mas, lá pelo meio da temporada de 16 episódios, alguém resolveu que estava faltando sexo na trama. E dá-lhe cenas dignas das historietas eróticas que passam de madrugada no Multishow. Tentativas de estupro da heroína, então, triplicaram. Que Claire sofresse esse tipo de assédio é algo natural dado o contexto, mas a frequência repentina foi de chamar a atenção. Mas o único estupro levado a cabo (sem trocadilho), e com requintes de detalhes e sadismo, foi homossexual. Eu não consegui assistir, mas a minha esposa sequer parou de comer. Disse que estava interessada nos diálogos (tipo entrevista da Playboy, saca?).

Entre mortos e feridos, a temporada se encerra com o polegar pra cima. Por que não, então, partir pros 13 episódios da temporada seguinte?

Se a primeira temporada foi baseada no primeiro livro da série, a segunda é baseada no 2º livro: A Libélula no Âmbar. E começou com o pé esquerdo, mas com um gancho irresistível pra te deixar curioso pra saber o que diabos aconteceu: um ano depois dos eventos do final da primeira temporada, Claire volta ao século XX dois anos após sua partida. Claro que a temporada se destina a contar o que aconteceu neste meio tempo.

Só que há muitas inconsistências e uma trama muito maluca que leva o casal de protagonistas a Paris. Tudo bem que a corte de Versailles é um tanto caricata por natureza, mas a afetação da série contrasta muito com a seriedade e respeito com que foi retratada a cultura highlander. A ponto de eu liberar a série pra minha esposa assistir sem mim. Ela vai me contando o que vai acontecendo. Se melhorar, eu volto a assistir. Isso se ela também não desistir no meio.

O Prisioneiro do Céu

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Quando fui dar continuidade à trilogia de Carlos Ruiz Zafón, me disseram que o segundo livro, O Jogo do Anjo, era uma espécie de prequel de A Sombra do Vento. Depois, descobri que a história sequer era sobre Daniel Sempere, o protagonista do primeiro livro. Então parti para o terceiro livro, O Prisioneiro do Céu, confiando no texto introdutório, que dizia que os livros podiam ser lidos fora de ordem. Mais ou menos: A Sombra do Vento não pode ser lido depois de O Prisioneiro do Céu.

De fato, eu estava curioso em saber o que havia acontecido com Daniel, e achei desestimulante ler uma outra história do Cemitério dos Livros Esquecidos que nada tivesse a ver com a primeira. E O Prisioneiro do Céu continua a história quase exatamente de onde parou o primeiro livro. Entretanto, a experiência literária é bem diferente.

Enquanto A Sombra do Vento é composta de duas narrativas paralelas que se entrelaçam, O Prisioneiro do Céu é mais linear, ainda que boa parte seja em flashback. A estrutura do livro é bem simples, corrida e direta. Não a toa é o mais curto dos três. Enquanto o primeiro soa como uma metáfora literária, o terceiro é praticamente um thriller detetivesco com um toque nada sutil de O Conde de Monte Cristo. É bastante envolvente ao nos aprofundarmos na história de Fermín Romero de Torres, mas parece um apêndice à história original.

O livro revela um coadjuvante de luxo, David Martin, que dá título à obra. Na verdade, Martín é o protagonista de O Jogo do Anjo. Para quem ler a trilogia na ordem, ficará sabendo o destino de Martín. Já para quem, como eu, pulou o segundo livro, ficará instigado a descobrir o passado do escritor. Assim, passei a ter a curiosidade que antes me faltara para ler o segundo livro.

Ano passado, Zafón publicou o quarto e último livro da série, O Labirinto dos Espíritos (ainda sem tradução), para o qual todas as narrativas parecem convergir.

Vinyl

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Vinyl é uma série criada por Martin Scorsese, Mick Jagger, Rich Cohen (escritor e colaborador das revistas Vanity Fair e Rolling Stone) e Terence Winter (The Sopranos e Boardwalk Empire) que visa mesclar a temática de submundo de Scorsese com a indústria musical dos anos 70 vivenciada por Jagger. Nesse intento, o quarteto foi bem sucedido. Mas a série tem problemas.

Trata-se de mais uma série curta (10 episódios) com mais de 50 minutos por episódios. Entretanto, o primeiro episódio, o único dirigido por Scorsese, é na verdade um filme. O piloto tem quase duas horas e é uma obra típica do diretor. Enxuta, redonda, firme, melhor do que muitos de seus filmes mais recentes (parece que a ansiedade de ganhar Oscar estava mesmo bloqueando sua criatividade – depois do prêmio, seus filmes melhoraram).

Quando chega ao final, achei a história redondinha – um crápula da indústria musical, mas muito talentoso, que chega ao fundo do poço e é literalmente salvo pelo rock’n’roll – que pensei ser cada episódio uma história diferente. Mas não, no segundo episódio estavam todos lá, e dessa vez com menos de uma hora de episódio.

O segundo episódio é muito divertido, o mais engraçado da série, e parece apontar em uma determinada direção. Só que nos episódios seguintes o caldo meio que desanda. Talvez preocupado de mais em retratar o período, homenagear artistas, registrar costumes, a história perde o foco, enrola e fica sem ritmo. Há pelo menos três episódios muito fracos. Enfim, o que foi contado em 10 poderia ter sido feito em 6 episódios.

Apesar disso, a caracterização está muito boa. Exceto por um esquisitíssimo Robert Plant, você embala no sonho com Lou Reed, David Bowie, Alice Cooper, John Lennon, Andy Warhol. Entretanto, a trama policial se torna muito óbvia, cartesiana.

Só no último capítulo a série recupera o pique e surpreende. Coincidência ou não (acredito que não), o 2° e o último episódios foram escritos por Terence Winter, que co-escreveu com seus colegas de criação o piloto. Ou seja: o que há de melhor na série tem o dedo dele.

No geral, a série acaba valendo a pena, mas a grande frustração fica por conta do final. Ou não final. As tramas principais encontram um desfecho, mas a temporada se encerra com algumas pontas soltas. Na época, estava prevista uma segunda temporada, mas quatro meses depois a HBO decidiu cancelá-la.

Doutor Estranho

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Pra início de conversa, as piadas são ótimas. E adorei o filme até o acidente de carro, incluindo o acidente de carro. Mas, depois, não sei se foi porque a minha expectativa estava lá em cima, gostei do filme mas não me empolguei. Preferi o desenho animado, confesso.
Pontos negativos:
1- Aquele mesmo efeito especial de manipulação da realidade. É mágica, Pode-se fazer qualquer coisa! Dá pra ser mais criativo? Nem que fosse pra chupar de Inception.
2- Stephen Strange é a arrogância em pessoa. Em todas as origens ele tem essa arrogância quebrada, um choque de humildade. Neste filme, não. Todo o processo é conduzido na base da argumentação. Em nenhum momento há uma quebra real. Ele continua o mesmíssimo personagem do início, só que passando por experiências que fazem o bem dentro dele se sobressair. E ele estava claramente lá desde o início. O filme retrata um Strange mais humano do que nas outras versões, ainda que igualmente egocêntrico.
3- A trama não é ruim, tampouco complexa. Mas é de um grau altíssimo de poder. Strange fazer a diferença nesse combate soa forçado, pois o seu treinamento não permite tanto conhecimento. Claro que aparecerão explicações que mostrarão que ele poderia, mas isso não aparece no filme, e deveria.
4- Por falar em treinamento, Strange mal chega no Nepal e já é apresentado ao manual do mundo místico. Muito rápido. Broxante.
5- O ritmo foi muito acelerado, parecia quadrinhos dos anos 60. A narrativa não dava o tempo necessário pra trama evoluir.
6- Como em Matrix e quase todo filme americano, uma cena de perseguição infinita e dispensável.
7- Mordo poderia ter feito o que fez no final, mas não com aquele discurso e sorrisinho. Não combinou com o personagem apresentado no filme.
Pontos positivos.
1- O ator. Está ótimo, melhor do que em Sherlock.
2- Como disse, todas as cenas até o acidente de carro são muito boas. Pena que o filme não manteve o nível.
3- Como também já disse, as piadas são ótimas.
4- Dra. Palmer, bom personagem.
5- A Anciã, também bom personagem.
6- O vilão, apesar de clichê na forma, o diálogo dele com Strange mostra profundidade, suas motivações convencem.
7- Os itens mágicos e as referências a coisas bastante conhecidas nos quadrinhos, incluindo a caracterização de Dormammu.
8- A forma que Strange achou pra derrotar Dormammu.
E, sempre lembrando, TEM CENA DEPOIS DOS CRÉDITOS!!!